Literatura Africana
Marcele Aires Franceschini
01 de agosto de 2021

A mina do rolê

Com a literatura aprendi que Noémia de Souza é Moçambique e Moçambique é Noémia.


Outro dia, preparando uma aula de poesia, reparei no olhar de Noémia de Sousa (1926-2002), já idosa, tão bonita, camisa fina, cabelos grisalhos. Como se nota, a imagem não traz um sorriso calculado, foto planejada a ser comercializada em orelha de livro. É sim o retrato de uma mulher elegante, original, que traz em seu rosto a passagem do tempo, fiel calendário dos dias.

Com a literatura aprendi que Noémia é Moçambique e Moçambique é Noémia. Sua própria história vem carregada de multiplicidade étnica: família materna de origens germânicas, moçambicanas e de Goa; família paterna de Goa, Portugal, África. Confluência de eus e culturas. Não por acaso a identidade antecede a escrita da autora, a grande “Mãe” do modernismo moçambicano.

Noémia é escritora militante, engajada, que ousou enfrentar o sistema opressor colonizador ao longo do processo de independência de seu país. Atuante na vida política moçambicana, seu texto é a síntese da negação à noção imperialista/ocidental de Salazar, dando sinais da mudança de eras. À poeta, a tomada de consciência é seu verdadeiro material de combate e tal espírito já a acompanhava nas décadas de 1940 e 1950, quando a jovem jornalista colaborou com periódicos como O Brado Africano, Mensagem, Vértice, Moçambique 58 e Sul; essa, revista brasileira.

Sempre fico pasmada em saber que Noémia esteve no Brasil por essa época e tão pouco a conhecemos por aqui. Em sua passagem, dedica o poema “Samba” a Ricardo Rangel, amigo moçambicano com quem compartilhou a viagem, em novembro de 1949. Outra referência ao Brasil é “Poema a Jorge Amado”, no qual a escritora revela sua admiração pelo baiano.

Se o/a estimado/a leitor/a procurar pelas obras de Noémia, irá encontrar a publicação de seu trabalho de forma dispersa, em jornais e revistas da época. Foi somente em 1988 que a Associação de Escritores Moçambicanos coletou seus poemas escritos entre 1948-1951 e os apresentou em Sangue Negro.

 

nossa voz, irmão,

nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade

e revolucionou-a

arrastou-a como um ciclone de conhecimento

 

Os versos de “Nossa voz” marcam o espírito de Sangue Negro, até hoje referência no que tange ao modernismo moçambicano. Noémia é daquelas escritoras que bastou uma obra para se sagrar com grande. Além da edição de 1988, houve a reimpressão pela Associação, em 2001, um ano antes de a autora falecer. Mais tarde vieram as publicações da editora moçambicana Marimbique (2011) e da brasileira Kapulana (2016), com capa simbólica de Amanda de Azevedo e prefácio da Professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ, Dra. Carmen Lúcia Tindó Secco. A versão brasileira, parte da série “Vozes da África”, é bastante rica porque traz intensas ilustrações de Mariana Fujisawa e estudos de Fátima Mendonça (escritora, pesquisadora da literatura moçambicana, vencedora do Prêmio José Craveirinha de Literatura, 2016), Francisco Noa (escritor, professor e pesquisador moçambicano, Prêmio BCI de Literatura 2014) e Nelson Saúte (jornalista, escritor e professor moçambicano). Foi o Nelson quem organizou as edições da Associação dos Escritores Angolanos e da Marimbique, cujos prefácios foram revistos e ampliados à versão da Kapulana. [O Nelson é um poeta incrível, adoro! Seu livro A pátria dividida (1993) é belíssimo, vale a pena a leitura].

Em Sangue Negro há várias experiências: o diálogo com outras vozes negras importantes, a exemplo da diva do soul Billie Holiday (“A Billie Halliday, cantora”); a ânsia por cantar sua identidade (“torturada e magnífica / altiva e mística, / africa da cabeça aos pés, / – Ah, essa sou eu!” – in: “Se me quiseres conhecer”); o grande sentido de resgate às suas origens (Oyo, oyo, vida! / Para lá daquela curva / Os espíritos ancestrais me esperam” – in: ”Mulher que ri à vida e à morte”); além de um vigoroso grito de resistência, insurreição contra a ordem vigente: “Bates-me e ameaças-me, / Agora que levantei minha cabeça esclarecida / E gritei: ‘Basta!’ / Armas-me grades e queres crucificar-me / Agora que rasguei a venda cor-de-rosa / E gritei: ‘Basta!’ – in: “Basta!”).

A obra inteira ecoa a voz subtraída da Mãe-África, no entanto tão rica, tão lírica, tão mítica, quase mágica. Noémia canta seu povo, sua cultura ao mesmo tempo em que denuncia, eu-lírico jamais sozinho, sempre um eu-social, eu comprometido com os valores coletivos. Noémia é a dona do poeta-protesto, como em “Súplica” (1949), um dos meus favoritos. Lindo, lindo, lindo. Eis um trecho:

 

Que onde estiver nossa canção

mesmo escravos, senhores seremos,

e mesmo mortos, viveremos,

e no nosso lamento escravo

estará a terra onde nascemos,

a luz do nosso sol,

a lua dos xingombelas,

o calor do lume,

a palhota onde vivemos,

a machamba que nos dá pão. (p. 31, edição da Kapulana)

 

 

Passadas tantas décadas, Noémia vale ser lida por sua atualidade. Os conflitos ocorridos no tempo Moçambique pré-independência em muito se casam à estrutura sócio-política-econômica constituinte do Brasil atual, que insiste em esconder a Repressão, que louva torturadores e debocha da morte alheia, firmando o que o filósofo camaronês Achille Mbembe chama de “necropolítica”. A própria autora teve de se exilar na França, na década de 1960, em razão das perseguições do Estado Novo português. Não por acaso a crueldade é marca pungente nas relações entre o dominado e o dominante em sua obra, no entanto, não fica só o peso na leitura: Noémia consegue ser suave mesmo na dor, dá lições de coragem, canta o povo moçambicano de modo poético – jamais ufanista, nacionalista – e ainda no caos, sussurra palavras de esperança, seja na xingombela, a dança dos amantes, à lua nova; seja compartilhando o pão da machamba, terra nossa de cada dia.

Outro poema belíssimo de Sangue Negro é “Aforismo”:

 

Havia uma formiga

compartilhando comigo o isolamento

e comendo juntos.

 

Estávamos iguais

com duas diferenças:

 

Não era interrogada

e por descuido podiam pisá-la.

 

Mas aos dois intencionalmente

podiam pôr-nos de rastos

mas não podiam

ajoelhar-nos.


 

Sobre o título, “aforismo” é uma sentença/máxima que condensa, em poucas palavras, um significado. Aqui, Noémia opera com habilidade o equilíbrio das forças contrárias, pois ao mesmo tempo em que em se iguala, com doçura e humildade, a um pequeno inseto; é gigante ao deixar explícita sua marca de enfrentamento, de resistência. Como? Ainda que fosse posta, colocada, arbitrária e violentamente na posição rastejante, a voz lírica é categórica ao se negar ‘ajoelhar’ ao inimigo e à sua ideologia. Além disso, o ato de se colocar na mesma posição da ‘formiga’ demonstra sua consciência coletiva, jamais hierarquizada, mulher pronta ao combate. O bom combate. O verdadeiro combate.

Noémia é poeta que usa toda força exponencial da palavra como argumento. Isso é coisa bonita demais de se ver num/a escritor/a, sobretudo porque o vocábulo vazio, sem força, não entra em nossos corações, logo se dissipa. É a palavra carregada de símbolos e sentidos universais como liberdade, força, consciência, ação, poder, união e luta por justiça que torna sua poética tão especial. É sua palavra real, palavra sensível que nos agrada e nos move a entender como o engajamento social, político, é, no fim das contas, a luta por nossas próprias vidas. Por isso, uma obra como Sangue Negro é diamante, é eterna.

 


Marcele Aires Franceschini é Pós-Doutora na linha ‘Construções e Processos Identitários’ (UEL, 2019); Doutora em Literatura Brasileira (USP/2009); Mestre em Teoria Literária (USP/2003), Especialista em Literatura Brasileira (UEL/2000). Desde 2011 é Professora do Departamento de Teorias Linguísticas e Literárias da UEM e também do Programa de Pós-Graduação em Letras, oferecendo a disciplina: “África-Brasil: interconexões históricas, culturais, etnográficas e literárias”. É líder do Grupo de Estudos de Literatura, Brasilidade, Etnia e Cultura (GELBEC/UEM), parceiro do Grupo de Pesquisa de Literatura Afro-Brasileira (GPLAB/UEL). É autora de duas obras literárias: Que transpõe o halo (poesia, 2010) e Ausência em monólogos (2011 – Prêmio Guavira Melhor Romance, 2012).

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